O ressurgimento do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, conhecidas como Midterms, foi impulsionado por uma nova geração de lideranças formadas por jovens, representantes de minorias étnicas e religiosas, e defensores de pautas progressistas.
A crise de 2024 e o desgaste político Essa guinada ajudou a apagar a imagem desgastada deixada pela derrota para Donald Trump em 2024, período em que a legenda era fortemente associada às elites financeiras e acusada de virar as costas para os trabalhadores norte-americanos.
Segundo o doutor em ciência política Juliano Machado Pires, a impopularidade dos democratas em 2024 teve raízes na frustração com a gestão de Barack Obama.
“A população tinha muitas expectativas com o governo Obama. Com a crise dos bancos, em 2008, Obama salvou os bancos, mas não salvou a hipoteca da população. Uma parcela das pessoas se sentiu traída e ficou com a sensação de que os dois partidos davam no mesmo na hora de proteger os direitos econômicos das pessoas”, explicou.
Novas lideranças e pautas sociais A professora de relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pontuou que o pleito trouxe ao poder figuras distantes da cúpula tradicional do partido.
“São indivíduos que têm uma agenda muito mais progressista, em alguns casos até socialista, enfatizando melhores condições de vida para a classe trabalhadora, saúde universal e gratuita para todos”, comentou à Agência Brasil.
Com o desempenho expressivo, os democratas conquistaram cadeiras no Congresso em redutos republicanos históricos, como o Texas, garantindo o controle da maioria tanto no Senado quanto na Câmara contra a base de Donald Trump.
Marcos de representatividade O pleito foi marcado por vitórias históricas de figuras pioneiras em vários estados norte-americanos.
Entre os nomes de destaque, estão a primeira mulher negra da história dos EUA a ser eleita governadora, Keisha Lance Bottoms, pelo estado Georgia; a primeira governadora indígena, Deb Haaland, pelo Novo México; e o primeiro senador abertamente homossexual, Chris Papas, eleito por New Hampshire.
Ao celebrar o triunfo, Bottoms direcionou sua conquista aos cidadãos desassistidos pelo sistema de saúde e educação diante do encarecimento da vida no país.
“Esta vitória é para o cuidador que não tem condições de arcar com despesas de saúde e precisa que a Georgia finalmente amplie o Medicare [principal programa público de saúde dos EUA]”, disse Keisha Bottoms.
O professor James N. Green, da Universidade de Brown, avaliou que a descentralização do poder partidário permitiu o surgimento de perfis diversificados capazes de dialogar com o eleitorado local.
“A diversidade do Partido Democrata deu essa flexibilidade de candidatos diversos, que podiam atrair uma base da população, combinada com uma política horrível do governo de Trump, que incentivou muitas pessoas a romper com ele e apoiar os democratas”, avaliou.
O fenômeno James Talarico no Texas O pleito também registrou a vitória marcante de James Talarico ao Senado pelo Texas, quebrou um jejum de quase 40 anos sem vitórias democratas no estado, além da eleição da primeira governadora latina na região, Gina Hinojosa.
Aos 37 anos, Talarico combina sua formação como seminarista presbiteriano com discursos contundentes em prol da justiça social e das comunidades vulneráveis.
“O presidente dos EUA disse que eu insultei Jesus. Sabe o que insulta Jesus? Deixar os pobres sem assistência social enquanto corta impostos de bilionários. Sabe o que insulta Jesus? Deportar o estrangeiro e separar mães de seus bebês”, disse.
As críticas do jovem político miravam as diretrizes anti-imigração da gestão Trump e a aprovação de cortes fiscais voltados aos mais ricos em detrimento de verbas para a saúde.
“A única minoria que está destruindo os Estados Unidos é a dos bilionários. Muitas das divisões neste estado e neste país são fabricadas por bilionários que querem que lutemos uns contra os outros, em vez de lutarmos contra eles”, disse Talarico em um evento de campanha.
Para Camila Vidal, o texano resgata uma vertente esquecida pela legenda desde os anos 1990.
“Vinda de um estado como o Texas, é bastante emblemático. Talarico traz de volta a religião e o cristianismo para o âmbito do trabalhador local, falando com essa classe empobrecida e gigantesca hoje em dia nos EUA. É uma grande surpresa”, comentou.
Representatividade muçulmana e política externa Outro marco das eleições foi a conquista de uma vaga no Senado por Abdul El-Sayed, primeiro muçulmano a ocupar o cargo pelo estado de Michigan, que centrou críticas no financiamento militar externo a Israel.
Em seu discurso de agradecimento, El-Sayed denunciou pressões e investimentos financeiros de grupos de lobby contrários à sua candidatura.
“Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus antepassados sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos”, afirmou o senador eleito.
O resultado nas urnas coincidiu com o anúncio da suspensão temporária de US$ 4 bilhões em ajuda militar a Israel por parte de Trump, medida interpretada por analistas como um esforço para conter a fuga de eleitores críticos ao apoio norte-americano ao governo israelense.
