Completando um ano nesta semana, a Operação Contenção — realizada nos complexos de favelas do Alemão e da Penha — segue sem uma conclusão definitiva sobre as circunstâncias das mortes e a responsabilização dos envolvidos, mesmo diante de investigações conduzidas pelas polícias Civil e Federal, além do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ).
Investigações do Ministério Público Coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ, o promotor de Justiça Fabio Correa preside o Procedimento Investigatório Criminal (PIC) aberto para apurar as mortes ocorridas durante a operação dos dias 28 e 29 de outubro de 2025.
“É uma situação sui generis, como nunca aconteceu na história da segurança pública do Rio de Janeiro, tanto que é considerada a operação mais letal da história”, destaca o promotor.
Até o momento, o órgão ministerial já ouviu 255 policiais envolvidos e 61 detidos, além de manter contato com 45 parentes das vítimas fatais para recolher depoimentos fundamentais para o esclarecimento dos fatos.
Casos atípicos e desvios de conduta Entre os pontos analisados pelos peritos, situações específicas chamaram atenção pelo grau de atipicidade, incluindo registros de disparos à curta distância e um caso de decapitação.
“[Os dois casos] não são conclusivos e permanecem ainda em apuração no bojo dessa investigação, que apura a totalidade das mortes, não só dos civis, como também dos policiais”, ressalta Corrêa. “É um elemento de prova, um elemento que vai ser trazido aos autos junto com os demais, com as demais análises sobre depoimentos, câmeras corporais [usadas pelos policiais]”.
O promotor reforça a expectativa institucional em torno do caso: “[Mas] o Ministério Público espera e pretende dar essas respostas definitivas sobre o que de fato aconteceu naquele dia”.
Além das mortes, 27 policiais já foram denunciados à Justiça por crimes como desvio de fuzis e invasão de domicílio, enquanto relatórios apontam que equipamentos de gravação foram intencionalmente desligados ou obstruídos durante a ação.
Apontamentos internacionais e impacto territorial Em março, um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) criticou a condução da ação militar e apontou deficiências estruturais nas investigações de violência policial no Brasil.
Especialistas e pesquisadoras de instituições como o Instituto Fogo Cruzado e a Universidade Federal Fluminense (UFF) avaliaram que o saldo estratégico da mobilização foi nulo.
“O que a gente percebe é o que percebemos em todas as operações violentas no Rio de Janeiro. O saldo é nulo ou negativo. A gente fala nulo porque nada mudou”, afirma Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado.
Complementando a análise sobre o impacto operacional, Carolina Grillo, pesquisadora do Geni/UFF, destacou o fracasso tático da iniciativa: “Os moradores passaram por uma cena de filme de terror para nada. No segundo em que a polícia foi embora, o Comando Vermelho continuava controlando o território. Supostamente, essa operação era para prender o Doca [liderança criminosa local]. Segundo os moradores, todo mundo já sabia que ia ter operação e que o Doca já tinha saído na véspera”.
Diante do cenário de impunidade e do trauma acumulado pela população local, as cobranças por transparência e justiça continuam mobilizando moradores e entidades da sociedade civil um ano após a tragédia.
Fonte: Agência Brasil - EBC










