O Ministério das Relações Exteriores empossou, nesta quarta-feira (4), os primeiros diplomatas indígenas da história do país no Palácio Itamaraty, em Brasília. Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, marcam uma nova fase na representatividade institucional brasileira ao ingressarem na carreira diplomática.
Nova turma do Instituto Rio Branco
Os novos diplomatas vão integrar a turma com início em 2026 e conclusão em 2028, após serem aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD), que contou com cerca de 60 alunos. O processo seletivo registrou ampla presença de grupos historicamente subrepresentados, incluindo 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, uma pessoa quilombola e os dois novos representantes dos povos originários. Além disso, o grupo alcançou o maior patamar proporcional feminino da história, com 45% de mulheres.
As vagas afirmativas no Instituto Rio Branco seguem diretrizes estabelecidas pelo Estatuto da Igualdade Racial de 2010 e atendem a antigas demandas de movimentos sociais de direitos humanos.
Diversidade e resistência no Ministério das Relações Exteriores
Durante a cerimônia de boas-vindas realizada nesta quinta-feira (5), a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, enfatizou que o corpo diplomático nacional precisa espelhar a pluralidade da sociedade.
“Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência”, afirmou Laura da Rocha.
“Ao fazer isso, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo”, declarou.
A pasta tem ampliado iniciativas voltadas à equidade, a exemplo do fortalecimento do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia. A iniciativa agora contempla, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, definiu o ingresso como a concretização do conceito de “Aldear o Estado”, levando lideranças originárias para instâncias estratégicas capazes de influenciar diretrizes dentro e fora do território nacional.
“É um momento altamente simbólico. Não é apenas um ganho individual ou coletivo, é um ganho de toda a nation e do Estado brasileiro”, disse Terena.
Convidado especial da solenidade, o escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Ailton Krenak celebrou a conquista e ressaltou que a presença de famílias e crianças indígenas na solenidade quebrou a rigidez do ambiente oficial.
“Que mesmo diante das quase impossibilidades, eles sejam capazes de exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido”, declarou.
Trajetórias acadêmicas de destaque
Natural de Campina Grande (PB), Marcelo Kariri é graduado em Engenharia Elétrica pela UFCG, possui MBA pela USP/Esalq, atuou como engenheiro de suporte e assina obra infanto-juvenil.
“Havia uma tradição permeando onde minha família morava de que pessoas como nós enlouqueceriam se estudassem e deveriam ficar apenas nos trabalhos braçais”, contou na cerimônia. “Minha mãe viu na educação uma porta para a vida”.
Já Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela USP, mestre pelo Museu Nacional da UFRJ e formado em Ciências Sociais pela PUC-Rio. Ele é filho de Macsuara Kadiwéu, reconhecido como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.
“Estrar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado”, avaliou.
O contexto demográfico brasileiro aponta 1,2 milhão de indígenas espalhados por 391 etnias e 295 línguas, além de 114 grupos isolados ou de contato recente, em uma população total de 203 milhões de habitantes. Paralelamente, os dados do IBGE de 2022 mostram que a população negra soma 92,1 milhões de brasileiros, sendo 45,3% autodeclarados pardos.
Fonte: Agência Brasil - EBC










