Uma pesquisa conduzida por especialistas da Universidade de São Paulo (USP) revelou que cada dia adicional sob o efeito de uma onda de calor na capital paulista eleva o perigo de acidente vascular cerebral (AVC) agudo em indivíduos com 65 anos de idade ou mais. No levantamento, o fenômeno foi definido como um período de pelo menos dois dias seguidos com registros máximos de temperatura iguais ou superiores a 33,1 °C.
O perigo do estresse térmico urbano O cenário agrava-se consideravelmente quando o calor extremo se une à poluição atmosférica causada por partículas finas PM10, formadas principalmente por poeira inalável e fumaça de veículos. Conforme os dados levantados, a probabilidade de um derrame entre a população idosa da metrópole sobe a cada dia em que esses dois fatores coexistem.
“É a primeira vez que uma pesquisa epidemiológica de base populacional, ou seja, baseada em dados reais de uma grande parcela da sociedade, quantifica, na maior metrópole da América Latina, o impacto direto e agudo do estresse térmico sobre o risco imediato de AVC agudo em idosos”, conta Goulart à Agência FAPESP.
Metodologia e impactos no organismo Para chegar a essas conclusões, os especialistas examinaram informações do Estudo de Mortalidade e Morbidade do Acidente Vascular Cerebral (EMMA) e aplicaram modelos estatísticos em centenas de pacientes. Quando o cálculo isolou o fator térmico, a razão de chances foi de 1,121, mas o índice saltou para 1,404 ao incluir a poluição de PM10, o que representa um crescimento de 40,4% no risco diário.
“Os dados preliminares do estudo EMMA evidenciam que as mudanças climáticas e a poluição atmosférica não são apenas ameaças ambientais distantes, mas estressores urbanos imediatos que afetam a saúde do cérebro e deflagram eventos vasculares agudos na população idosa”, afirma Goulart.
Do ponto de vista biológico, o calor excessivo desidrata o corpo, encorpa o sangue e prejudica a termorregulação e o sistema cardiovascular, servindo como gatilho imediato para o derrame.
Hábitos de vida e proteção neurológica Em outra frente de investigação ligada ao Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), cientistas acompanharam milhares de participantes para entender como os cuidados com a saúde cardiovascular ajudam a blindar o cérebro contra a doença de pequenos vasos cerebrais (DPVC), que pode gerar demência.
“Analisamos a saúde cardiovascular contínua por meio do escore Life’s Essential 8 [métrica criada pela American Heart Association que monitora oito fatores fundamentais: alimentação, exercício físico, sono, tabagismo, índice de massa corporal, colesterol, glicemia e pressão arterial]”, relata Goulart. O monitoramento indicou que a cada 10 pontos ganhos nesse índice, o risco de lesões graves na microcirculação cerebral cai 14%.
O papel dos exercícios físicos A prática regular de atividades físicas também se destacou como um escudo para a memória, reduzindo em até 22% o risco de marcadores de DPVC e preservando o volume do córtex entorrenal, região vital para a cognição.
“Além de diminuir as lesões na microcirculação cerebral, constatamos que a movimentação corporal preserva o volume do córtex entorrenal, uma estrutura localizada no lobo temporal e fundamental para o processamento da memória e a navegação espacial”, aponta Goulart.
“Esses achados do ELSA-Brasil comprovam que a prevenção cardiovascular e o exercício físico constituem um pilar de proteção individual indispensável para manter a resiliência cerebral em metrópoles que envelhecem rapidamente”, alerta Goulart.
Testes com lítio contra o Alzheimer Enquanto os danos vasculares superam os casos de Alzheimer nas análises populacionais, pesquisadores da USP investigam há mais de duas décadas os efeitos neuroprotetores do lítio em doses subterapêuticas para estancar o avanço dessa condição neurodegenerativa.
“Estudamos o lítio há mais de 20 anos e os estudos clínicos mostraram um potencial de atenuar e estabilizar as perdas cognitivas, sugerindo a modificação do curso da doença”, afirma Forlenza.
Testes em laboratório com animais reforçaram que a substância minimiza o acúmulo de placas tóxicas e protege as células cerebrais.
“Mostramos não só uma modificação desse processo biológico, mas uma melhora de perdas comportamentais que esse modelo transgênico tem. O lítio resgata uma função que é perdida pela patologia da doença de Alzheimer”, afirma Forlenza.
Fonte: Agência SP










